Artigo do Treinador Bernardo Fernandes



Já passou algum tempo desde que publiquei o meu último artigo. Nesta peça, pretendo escrever sobre a minha experiência com a Seleção Nacional Portuguesa de Sub-21 e o seu sucesso "inesperado" ao alcançar o mais alto nível da competição europeia (Divisão A, estando entre os países de hóquei de topo como a Holanda, Alemanha, Bélgica, Espanha, etc).

No Verão passado, quando eu esperava ter um merecido descanso numa bela praia, após uma época desportiva muito atarefada, fui convidado pela Federação Portuguesa de Hóquei (nomeadamente pelo CTN - Mário Almeida) para colaborar com a equipa técnica, dos Sub-21 que iriam participar no Campeonato Europeu, Divisão B, tendo como adversários países como:  Itália, Rússia, Escócia, Irlanda e Ucrânia - países colocados, muito acima de Portugal, no ranking da FIH, no número de atletas federados, no número de jogos disputados por época, com melhores condições de treino e melhores condições financeiras.

Antes da competição, sendo esta equipa (subjetivamente considerada uma geração talentosa), recentemente promovida da Divisão C, logicamente deveria ter como principal objetivo a manutenção na Divisão B, mas o que realmente aconteceu durante o Torneio foi algo completamente diferente: o país com o ranking mais baixo, estava apenas atrás da Irlanda, no
goal average: Grande feito!

Certamente que tive um grande prazer em partilhar os meus conhecimentos com os jovens atletas portugueses, mas não pretendo transformar este texto em qualquer tipo de declaração patriótica, em vez disso, gostaria de expor algumas das razões que levaram este grupo ao sucesso e porque não se deve ter receio de incentivar este "tipo de jogador".
 
Muitos amigos ligados ao hóquei, perguntaram-me: “Bernardo, o que levou esta equipa a jogar tão bem?” e “ O que torna estes jogadores tão especiais?” – Não querendo ignorar a qualidade do treino e a liderança técnica durante a competição, irei apenas focar-me nas características dos jogadores.      
 
A discussão sobre como criar o melhor jogador irá certamente eternizar-se, porque a perspetiva sobre o melhor tipo de jogador é mutável e varia consoante o treinador, dependendo da sua própria filosofia de jogo, da sua experiência como jogador, do contexto competitivo e cultural, da tipologia física do jogador, da suas tendências internacionais. Ainda assim, tentarei descrever brevemente este tipo «exótico» de jogo.
 
A Fórmula
 
Para o sucesso e para o insucesso há certamente mais do que um motivo e é a soma de vários fatores positivos que criam um determinado equilíbrio, um certo fluído («flow»). Abaixo enuncio alguns dos fatores que, na minha opinião, contribuíram para uma excelente performance da equipa. 
 
Camaradagem” – Camaradagem quer dizer igualdade, lealdade e amizade. Este grupo de jogadores, ou a sua maioria, estiveram juntos em várias competições internacionais desde os 14 anos de idade. Esta situação deve-se ao escasso número de atletas selecionáveis. Durante a carreira internacional, num país, como Portugal, em que o Hóquei é um desporto com pequena dimensão, estes jogadores já tiveram que ultrapassar carências de ordem financeira e logística, nos treinos de preparação, no alojamento, nas viagens, etc., o que definitivamente contribuiu para os fortalecer e de certo modo deu a conhecer os que têm verdadeira paixão pela modalidade.
 
Há alguns anos, durante os treinos de preparação de fim-de-semana, a Federação solicitava aos jogadores que dormissem nas casas dos colegas, que viviam perto do campo de treinos, para poupar, visto que o orçamento era muito reduzido. Estas soluções criativas, alguns dirão que não são o ideal quando se pensa numa preparação de alto nível, mas revelou-se uma grande ajuda no fortalecimento e na criação de uma relação única entre estes jogadores.       
 
As velhas tradições clubistas e as rivalidades regionais, entre jogadores, deixaram de existir e, mais do que companheiros, eles tornaram-se amigos com prazer em estar juntos e a ajudarem-se mutuamente.     
 
Aqui está um facto curioso: 5 dos 12 golos marcados no Europeu, foram obtidos nos últimos 5 minutos dos 5 jogos (!!) e isto diz muito sobre a resiliência, mas também, sobre solidariedade e sobre uma equipa em que os jogadores estão preparados para lutar, em conjunto, até ao último segundo… 
 
“Jovens Veteranos” - Estes jogadores não tiveram o tempo convencional e o espaço para um percurso normal de desenvolvimento durante as suas fases juvenis e é principalmente uma competição interna frágil que “força" os jovens jogadores a competir, prematuramente, no escalão sénior, contribuindo para a sobrevivência das equipas e, consequentemente, para a própria competição. Fragilidades semelhantes são, obviamente, transportadas para a seleção sénior, onde é muito difícil fazer uma renovação progressiva, basicamente há veteranos misturados com jovens talentos. Logicamente, seria melhor ter mais atletas e mais equipas, mas este cenário também revelou ser uma boa oportunidade para transmitir experiência aos atletas mais jovens. Obviamente que isto constitui uma vantagem, quando se compete a nível internacional, visto já se estar habituado a esse ambiente competitivo e já se conhecerem as rotinas, as regras, alguns adversários etc.

Bravura - Este é para mim o fator mais importante e também a razão pela qual eu estava tão ansioso para conhecer e trabalhar com este grupo de indivíduos. Eu sabia de antemão que havia alguns jogadores com habilidades técnicas excelentes, com enorme talento, criatividade e uma boa dose de "individualismo" - o que é um cocktail emocionante - estas são as características especiais que definem este "tipo de jogador". Para mim, seguramente, uma bênção dos “Deuses do Hóquei” para outros, pode ser um obstáculo, uma aberração.
 
Por que será que eles são tão criativos, tão bem desenvolvidos tecnicamente, tão à vontade com a bola e tão corajosos para enfrentar, a qualquer momento, situações de 1 × 1 ou até mesmo 1 × 2? O contexto cultural desempenha aqui um grande papel; portugueses, espanhóis ou Italianos, (os Latinos) têm um “feeling” especial com a bola, a habilidade supera a eficácia, a criatividade supera a estrutura, o individualismo é apoiado, até certo ponto, um drible pode ter a mesma importância, ou causar a mesma excitação, que a marcação de um golo.
Os jogadores têm liberdade suficiente para serem criativos, para explorar o seu individualismo sem a "pressão" de terem à partida que obedecer a uma certa estrutura tática; eles superam-se desafiando-se uns aos outros, num ambiente de "dribles, habilidades e truques”.

Alguns deles tiveram, felizmente, um ambiente de treino focado em técnicas de base e avançadas e aquelas a que normalmente se podem chamar como técnicas "transferíveis" - Um estilo de treino divertido, desafiante e aparentemente eficaz...
 
De uma forma simplista, podemos afirmar que se tivermos um grupo de jogadores tecnicamente fortes, podemos ensinar-lhes alguns princípios táticos, com algum jogo de "inteligência", mas se pelo contrário tivermos uma equipa com uma boa estrutura e um bom conhecimento tático, mas sem bons executores técnicos, será sempre limitada e previsível.

Uma das minhas citações favoritas para ilustrar o pensamento anterior é:
"Ensinar às crianças como a posse de bola é fundamental. Todos os outros elementos - imaginação, condição física, mentalidade – virão depois”. - Rene Meulensteen – (Técnicas de Futebol no Desenvolvimento do Treino - Manchester United 2001-2013).
 
Percurso no Hóquei Indoor - É interessante verificar que vários destes jogadores iniciaram o seu percurso na modalidade na variante Indoor, ou têm uma larga experiência no Indoor. Não é por acaso que esta geração também vai competir na divisão “A” de Indoor em 2015. Pode parecer estranho ouvir isto de um país ensolarado como Portugal, mas a verdade é que há uns anos atrás, Portugal tinha uma longa competição no Indoor o que, na minha opinião, trouxe enormes de benefícios técnico/ táticos, nomeadamente:
 
- Mais contacto com a bola - melhora a tensão provocada pela bola;
- Passes de push mais efectivos, quer em situações estáticas quer em progressão;
- Skills de passe e de eliminação, com e sem simulação;
- Mobilidade especifíca e reforço das áreas físicas importantes devido à necessidade permanente de uma posição «mais baixa»;
- Dinâmicas de trocas e reações;
- Estilo de drible índio principalmente devido a um melhor ângulo stick/corpo e também um melhor movimento com o stick em progressão e proximidade com a bola, o que aumenta a velocidade de contacto de mudanças de direção;
- Defesa – aproximar, bloquear, canalizar, 1x2, 2x3, reposicionamento («counter control»), proteção de bola, etc;
- Ataque – Capacidade de drible em espaços muito reduzidos, critério apurado de passe, situações de 1x1 e 1x2, contra-ataque, finalização em espaço curto, proteção de bola, etc;
- Tomada de decisões em pouco tempo e em pouco espaço.
 
Video: https://www.youtube.com/watch?v=sZ52FgO-b5U
 
Espero que haja mais treinadores e educadores de jovens que compreendam o que eu quis transmitir neste artigo. Todos sabemos que Hóquei é um desporto de equipa, mas se queremos desenvolver os jogadores, temos que dar espaço ao individualismo em vez de criar limitações permanentes, que são originadas pela forma como nós treinadores (adultos) concebemos o jogo (para adultos).
O altruísmo é importante, mas não pode asfixiar o desenvolvimento individual. Criar espaços flexíveis, onde os jogadores se sintam tentados e desafiados a assumir riscos e a ser criativos. Isto é possível em qualquer parte!

Como última nota gostaria de mencionar o treinador holandês Norbert Nederlof, com quem tive algumas conversas interessantes sobre este assunto em particular.

Bernardo Fernandes

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